PÁGINAS


BILLIE EILISH: "NO ONE IS ILLEGAL ON STOLEN LAND" - NINGUÉM É ILEGAL EM TERRA ROUBADA

 

Billie Eilish no Grammy: protesta e expõe debate sobre imigração, história e direitos humanos

Em sua fala ao receber o prêmio de Canção do Ano na 68ª edição do Grammy Awards, a cantora Billie Eilish afirmou que “ninguém é ilegal em terra roubada ao criticar as políticas de imigração do governo dos Estados Unidos e o papel do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) — a agência federal responsável pela fiscalização e detenção de imigrantes. A declaração se tornou um dos momentos políticos mais comentados da cerimônia, impulsionando debates sobre direitos humanos, empatia e história nacional.

O passado colonial e o uso simbólico da expressão

A frase de Eilish ressoa não apenas como crítica às políticas atuais, mas como uma provocação histórica: o território atualmente ocupado pelos Estados Unidos foi conquistado progressivamente por colonizadores ingleses e outros europeus a partir do século XVII, por meio de guerras, deslocamentos forçados e tratados rompidos com povos indígenas como Cherokee, Lakota, Navajo e Apache. Esse processo marcou o que muitos historiadores e ativistas descrevem como uma “terra roubada” — numa referência à expulsão sistemática de povos originários que viviam nesses lugares muito antes da consolidação dos Estados Unidos como nação.

Ao evocar essa memória, Eilish liga as políticas contemporâneas de exclusão e punição a uma tradição de violência e desigualdade estrutural — um ponto de vista que ecoa em discursos de direitos humanos que pedem uma reflexão crítica sobre a identidade e as políticas do país.

A política migratória contemporânea e dados de direitos humanos

Dados oficiais e relatórios de organizações independentes revelam que as políticas do ICE alcançaram níveis inéditos de detenção e ação coercitiva em 2025. Segundo estatísticas do próprio órgão, mais de 68 mil imigrantes estavam sob custódia da agência em dezembro de 2025, estabelecendo um recorde histórico de detenção interna no país — um número que acompanha mais de 328 mil prisões e quase 327 mil deportações ao longo do ano. Metade dos detidos não tinha antecedentes criminais, desafiando a narrativa oficial de foco em criminosos perigosos.

Análises independentes, como as do Vera Institute of Justice, mostram que o número de pessoas detidas aumentou dramaticamente desde o início do segundo mandato de Donald Trump, com centenas de milhares de “book-ins” (registros de detenção) — muitos em instalações privadas operadas por empresas com lucro financeiro vinculado ao aumento dos presos.

Esses números ocorrem paralelamente a relatos consistentes de abusos e violações de direitos humanos dentro dos sistemas de detenção:

  • Organizações como a Amnesty International documentaram condições consideradas degradantes e violadoras de padrões internacionais em centros como o apelidado “Alligator Alcatraz” e o Krome, com denúncias de superlotação, falta de cuidados médicos, exposição a condições insalubres e tratamento desumano.
  • A Human Rights Watch identificou que em várias instalações na Flórida, detidos ficaram em espaços com luzes fluorescentes constantes, sem acesso adequado à higiene, água ou cuidados médicos, e foram transportados em condições degradantes por longos períodos.
  • A American Civil Liberties Union (ACLU) e grupos aliados denunciaram abusos extremos no novo centro Camp East Montana, incluindo agressões físicas, negligência médica, coerção e maus-tratos.
  • Relatórios encaminhados a organismos internacionais registram desaparecimentos de detidos, detenções arbitrárias e mortes sob custódia — com pelo menos 30 mortes em 2025 registradas em custódia do ICE, um dos piores totais em duas décadas.

Organizações e redes de defesa de migrantes também enfatizam que mais de 90 % das instalações de detenção são operadas por empresas privadas com incentivos financeiros para aumentar o número de detidos, o que contribui para condições que violam padrões básicos de dignidade humana.

Criticismo internacional e a falta de empatia

O resultado dessas políticas tem sido uma reação crítica que vem de diversas frentes: legisladores, entidades de direitos humanos, advogados e até setores da sociedade americana tradicionalmente menos engajados em política migratória expressaram preocupação com a falta de transparência, o uso de força excessiva e a restrição de acesso a advogados e famílias. Alguns críticos ressaltam que essas práticas intimidam comunidades inteiras, levando famílias a evitar serviços públicos por medo de abordagem e detenção.

A fala de artistas como Billie Eilish e Bad Bunny no Grammy reforça como essas questões, antes confinadas ao campo jurídico ou ativista, ganharam espaço no debate cultural e midiático — contribuindo para um diálogo mais amplo sobre empatia, direitos humanos e memória histórica, e apontando contradições entre os valores proclamados pelos Estados Unidos e as práticas atuais de controle migratório.

Fontes:

Portal de notícias Brasil em Folhas - Human Rights Watch - Human Rights Now - Reuters - American Civil Liberties Union - The Guardian - Vera Institute of Justice