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POR QUE O RECORTE RACIAL É IMPORTANTE NA POLÍTICA DE COTAS?

As cotas raciais para negros nas universidades brasileiras não são apenas uma política educacional, mas uma medida de reparação histórica e promoção de justiça social. Elas reconhecem que a exclusão e a desigualdade racial no Brasil têm raízes profundas — que atravessam séculos de escravidão, racismo institucionalizado e negação sistemática de oportunidades educacionais às pessoas negras e seus descendentes.

Historicamente, a educação formal era negada às pessoas negras escravizadas e pós-abolição. Mesmo após o fim da escravidão, políticas educacionais excludentes, abandono estatal e segregação socioeconômica mantiveram milhões de negros fora das escolas e universidades por décadas. O resultado foi uma legião de analfabetos e de semiletrados entre populações negras — um legado que ainda se manifesta nas desigualdades atuais de escolaridade, renda e mobilidade social.

Esse contexto explica por que políticas de ação afirmativa são necessárias: elas funcionam como um mecanismo de compensação por desigualdades estruturais, e não como favores ou privilégios indevidos. A Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) tornou obrigatório, nas universidades federais, que pelo menos 50% das vagas fossem reservadas para estudantes egressos de escolas públicas, com sub-cotas para renda familiar baixa e para autodeclarados pretos, pardos e indígenas, proporcionalmente à presença dessas populações em cada estado.

Os resultados dessa política são expressivos. Antes das cotas obrigatórias, negros e pardos eram minoria nas universidades públicas; hoje, essas ações afirmativas mudaram o perfil racial do ensino superior brasileiro, tornando-o mais diverso e mais próximo da composição real da população. Em meados da década passada, cotistas já ocupavam cerca de um terço das vagas nas universidades federais e quase metade nos institutos federais, com centenas de milhares de jovens negros tendo ingressado no ensino superior graças a essa política. Paralelamente, a proporção de pessoas negras com diploma universitário cresceu de forma significativa em relação às décadas anteriores — ainda insuficiente, mas inegavelmente melhor do que seria sem as cotas.

É fundamental destacar o recorte socioeconômico das cotas. Metade das vagas reservadas pela lei destina-se a estudantes de escola pública e de baixa renda, reconhecendo que desigualdade racial e desigualdade social caminham juntas no Brasil. A combinação de critérios raciais e sociais torna a política mais justa e mais eficaz, pois alcança justamente aqueles que sofrem a sobreposição de pobreza e racismo.

Mesmo assim, há críticas internas dentro da própria comunidade negra, o que é legítimo e revela a complexidade da formação social brasileira. Algumas pessoas negras se opõem às cotas raciais por diferentes motivos: influência do discurso meritocrático, pouca difusão da história do racismo estrutural, ou a crença de que apenas o critério social seria suficiente. Muitas vezes, isso decorre de uma educação que não aprofundou o passado escravocrata, a persistência das hierarquias raciais e o mito da “democracia racial”, que obscurece desigualdades concretas.

Essa dimensão histórica fica ainda mais clara quando pensamos no mercado de trabalho. Mesmo quando colocamos um negro pobre e um branco pobre disputando a mesma vaga de emprego, em tese “nas mesmas condições sociais”, a competição não é realmente igual. O branco pobre carrega a marca da pobreza; o negro pobre carrega a pobreza somada ao estigma racial produzido por mais de 300 anos de escravidão e pelo racismo estrutural que se consolidou desde o Brasil Colônia. Durante séculos, a população negra foi associada a imagens de incapacidade, preguiça, insolência e inferioridade intelectual — estereótipos que não desapareceram com a abolição e continuam, muitas vezes de forma inconsciente, orientando julgamentos no trabalho, na escola e na vida pública.

Nesse cenário, quem tende a ficar com a vaga? Na maioria dos casos, o branco. Não por mérito individual, mas porque ele não carrega sobre si esse “carimbo racial” negativo historicamente construído. O candidato negro, mesmo com igual escolaridade e experiência, costuma ser avaliado com mais desconfiança, exigido com mais rigor e contratado com mais cautela — dinâmica amplamente apontada por estudos sobre discriminação racial no mercado de trabalho brasileiro.

Por isso, as cotas raciais não representam privilégio, mas sim uma tentativa de corrigir um desequilíbrio histórico que continua operando no presente. Elas reconhecem que a desigualdade não começa apenas na renda ou na escola, mas na própria estrutura racial da sociedade brasileira. Enquanto essa lógica não for plenamente enfrentada e transformada, políticas reparatórias permanecem necessárias para aproximar o Brasil de uma igualdade que ainda não existe na prática.