PÁGINAS


OPORTUNISMO POLÍTICO


A extrema-direita brasileira sempre teve uma obsessão: a diminuição da maioridade penal. Não por compromisso com justiça, segurança pública ou proteção da sociedade, mas por um projeto histórico de encarceramento da juventude pobre, preta e periférica.
O brutal assassinato do cão Orelha, na praia Brava, em Florianópolis, escancarou mais uma vez essa lógica perversa. Um crime que gerou comoção nacional e internacional – justa e necessária – mas que agora
vem sendo instrumentalizado politicamente por setores da extrema direita para, mais uma vez, empurrar goela abaixo a redução da maioridade penal.
Com a repercussão da morte do Orelha, surge o movimento de políticos, que nunca fizeram um projeto de lei que beneficiasse os animais, tentando capitalizar politicamente com a tragédia. Um exemplo claro é o do deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil–SP), figura conhecida da extrema direita brasileira. O parlamentar protocolou um projeto que prevê o
aumento da pena para crimes de tortura contra animais — medida que, isoladamente, poderia até parecer legítima.
No entanto, o problema não está apenas no conteúdo formal do projeto, mas no contexto político em que ele é apresentado.
Kim Kataguiri pega carona no caso do cão Orelha para reforçar, mais uma vez, a defesa da redução da maioridade penal — pauta histórica da extrema direita. Ou seja, a dor causada pela morte do animal é utilizada como combustível para impulsionar um projeto que nada tem a ver com proteção animal, mas tudo a ver com o aprofundamento do Estado penal.
É preciso dizer com todas as letras: a redução da maioridade penal não atingirá filhos da elite, jovens brancos das áreas nobres ou herdeiros de sobrenomes influentes. Esses continuarão protegidos por advogados caros, acordos silenciosos e portas giratórias da justiça. Dois dos jovens envolvidos no caso, inclusive, foram enviados para fora do Brasil, um deles aos Estados Unidos — um detalhe que escancara o abismo social do país.
A quem, então, interessa essa mudança na lei?
Certamente não às vítimas da violência. Interessa a um projeto político que precisa de inimigos internos — e esses inimigos, no Brasil, têm cor, classe social e CEP definidos.
A extrema direita não demonstra preocupação real com a causa animal quando defende rodeios, flexibiliza leis ambientais, enfraquece a fiscalização e naturaliza o sofrimento animal em nome do lucro e
do espetáculo. A comoção, portanto, é seletiva. Serve apenas quando pode ser convertida em capital político.
Transformar uma tragédia em palanque é uma estratégia conhecida. Usar o sofrimento de um animal para legitimar o encarceramento precoce de jovens pobres é mais do que oportunismo — é perversidade política.
O caso do cão Orelha exige investigação séria, responsabilização e justiça. Não pode ser usado como atalho legislativo para avançar uma pauta que, historicamente, sempre teve o mesmo objetivo: punir
os de baixo e preservar os de cima. No Brasil, a justiça continua tendo lado.
E, infelizmente, esse lado segue distante dos pobres, dos pretos e dos que vivem à margem.
Isso não é justiça. É projeto de poder.

Por: Eufrate Almeida