Nos últimos anos tem circulado amplamente na
internet, um trecho retirado de uma entrevista do ator hollywoodiano Morgan
Freeman, em 2012, concedida ao programa “60 minutes”, da TV americana CBS News,
no qual ele manifesta uma posição crítica em relação ao termo Consciência Negra
e o ridiculariza, defendendo que o foco deveria ser deslocado das identidades
raciais para uma suposta “consciência humana” universal. A frase,
frequentemente compartilhada de forma descontextualizada, costuma ser
apresentada como um argumento definitivo para quem se coloca contra políticas
de reconhecimento racial e ações afirmativas. No entanto, quando analisada a
partir do campo da Educação para as Relações Étnico-Raciais, essa perspectiva
revela limites profundos e levanta questionamentos fundamentais sobre memória histórica,
desigualdade estrutural e o papel da consciência negra na luta contra o
racismo.
"O dia em que pararmos de nos
preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com
Consciência Humana, o racismo desaparece".
Essa afirmação tem incomodado muita
gente nas redes sociais e, enquanto pesquisador e estudioso das
Relações Étnico-Raciais, faço aqui uma reflexão àqueles(as) que se veem impelidos(as)
a concordar com a declaração, a maioria deles(as), com pouco conhecimento sobre
o assunto, para esclarecer que: ainda que reconheça no texto sua aparência
conciliadora, parto de um ponto de vista profundamente distinto dessa afirmação.
A fala de
Freeman, um ator famoso e privilegiado, não reflete a realidade de um negro
comum no Brasil, que enfrenta desigualdades e racismo estrutural, necessitando
de datas como o 20 de novembro para lembrar e combater injustiças históricas.
A
ideia de que o racismo acabaria se parássemos de falar em consciência negra e
passássemos a falar apenas em consciência humana ignora um dado central da
realidade histórica e social: o racismo não nasce da ênfase nas identidades
negras, mas da negação sistemática sobre a humanidade das pessoas negras ao
longo dos séculos. Falar apenas em “consciência humana”, em uma sociedade
estruturalmente racista, não é um gesto neutro; é, muitas vezes, uma forma de
silenciar desigualdades concretas.
Novembro,
como mês da Consciência Negra no Brasil, não existe para dividir, mas para
revelar. A data é uma resposta política, histórica e pedagógica a um sistema
que hierarquizou seres humanos com base na cor da pele, produzindo privilégios
para uns e exclusões para outros. Pedir que se abandone essa consciência, sem
que o racismo tenha sido efetivamente desmontado, equivale a exigir que os
oprimidos renunciem às ferramentas que lhes permitem compreender e enfrentar
sua própria opressão.
Além
disso, a noção de “consciência humana” abstrata desconsidera que nem todos
foram reconhecidos, ao longo da história, como plenamente humanos. Pessoas
negras precisaram — e ainda precisam — afirmar sua humanidade em um mundo que
as desumanizou pela escravidão, pelo colonialismo, pelo genocídio simbólico e
material e pelas desigualdades persistentes. Antes de os negros serem apenas
“humanos”, foram classificados, violentados e marginalizados como “negros”.
Do
ponto de vista educacional, trabalhar a consciência negra – independentemente
do mês de novembro – é fundamental para promover justiça social, equidade e
reparação histórica. Não se trata de eternizar divisões raciais, mas de
enfrentá-las com lucidez. A superação do racismo não virá do apagamento das
identidades, mas do reconhecimento crítico das diferenças e das desigualdades
que elas carregam.
Portanto,
o racismo não acabará quando deixarmos de falar em consciência negra, mas
quando a sociedade for capaz de encarar, reparar e transformar as estruturas
que tornaram necessária a existência dessa consciência. Somente então poderemos
falar, de forma honesta e concreta, em uma verdadeira consciência humana.
Em
2020, para a surpresa de quem nutria simpatia por aquele pensamento, o próprio ator aderiu
ao movimento Black Lives Matter, mostrando uma evolução no pensamento, uma revisão
no conceito ou um ponto de vista menos simplista sobre o tema.
Por: Eufrate Almeida
