Na noite do Super Bowl 60, Bad Bunny não foi apenas uma atração musical — foi um acontecimento político, cultural e simbólico que reverberou muito além do palco iluminado e das câmeras globais. O artista porto-riquenho transformou aquele espaço, tradicionalmente dedicado ao espetáculo e ao consumo, em uma arena de memória, identidade e resistência latino-americana.
O que vimos não foi um simples show de entretenimento, mas uma intervenção estética e política sofisticada. Bad Bunny ocupou o centro do maior evento televisivo dos Estados Unidos com a segurança de quem sabe que representa muito mais do que a si mesmo: ele carregava consigo a diáspora latina, os corpos imigrantes, as histórias silenciadas e a vitalidade de um continente que insiste em existir apesar das fronteiras impostas.
Em alguns momentos, ele foi direto — quase frontal
— ao tensionar a narrativa dominante dos EUA sobre imigração. Seus gestos, suas
coreografias e suas escolhas visuais funcionaram como recados inequívocos à
administração Trump e à retórica anti-imigrante que criminaliza, desumaniza e
marginaliza latino-americanos. Cada passo no palco parecia dizer: “Nós estamos
aqui. Nós fazemos parte desta nação. Nós construímos este país.”
Em outros momentos, Bad Bunny foi mais sutil,
operando pela poética, pelo símbolo e pela performance. Não precisava gritar
para ser ouvido. Bastava cantar em espanhol, ocupar aquele espaço com orgulho
caribenho, dançar com referências indígenas e afro-latinas, e vestir sua identidade
sem pedir licença. Essa sutileza foi, talvez, ainda mais potente: ela afirmava
que a presença latina nos EUA não é exceção — é constitutiva.
Seu show foi, essencialmente, um ato de
descolonização estética. Em um país que frequentemente tenta reduzir os latinos
a estereótipos — trabalhadores invisíveis, “ilegais”, corpos descartáveis — Bad
Bunny apresentou uma imagem de sofisticação, criatividade, complexidade e poder
cultural. Ele não pediu permissão para existir; ele ocupou o centro e redefiniu
o que significa ser americano.
E aqui reside um ponto crucial: quando falamos de
América, falamos de um continente plural, não singular. A América não se limita aos Estados Unidos. É um território vasto, diverso, contraditório, atravessado
por múltiplas histórias, línguas, povos e culturas. É América indígena, negra,
mestiça, caribenha, andina, amazônica, latina, anglo-saxônica —
simultaneamente. É lato, não estrito. É expansão, não clausura.
Bad Bunny, ao pisar naquele palco, lembrou isso ao
mundo. Ele reinscreveu Porto Rico — território ainda colonizado pelos EUA — no
imaginário global como sujeito cultural, e não como periferia política. Ele
mostrou que a identidade americana não cabe em um passaporte ou em um muro, mas
pulsa em ritmos, corpos e histórias que atravessam fronteiras.
Sua performance foi também uma aula de liderança
cultural. Em vez de discursos inflamados, ele escolheu a arte como ferramenta
política. Em vez de confronto verbal, optou pela potência simbólica. E ainda
assim, sua mensagem foi claríssima: nenhum governo pode apagar a presença
latina; nenhum muro pode conter um povo que canta, dança e resiste.
Bad Bunny saiu do Super Bowl não apenas como
estrela pop, mas como porta-voz de uma América que insiste em ser múltipla. Ele
encarnou a dignidade dos imigrantes, a memória colonial de Porto Rico, a
criatividade do Caribe e a vitalidade da cultura latina nos EUA.
Foi, sem dúvida, um dos momentos mais politicamente
carregados — e artisticamente brilhantes — da história recente do Super Bowl.
E por isso, ele merece todos os elogios.
Bad Bunny não só entreteve; ele educou. Não apenas cantou; ele declarou existência. Não só performou; ele politizou o espaço. E ao fazer isso, reafirmou algo essencial: a América não é propriedade de um governo, de uma bandeira ou de um presidente — é um continente vivo, plural e indomável.
*A reação de Donald Trump ao espetáculo de Bad Bunny foi dura e visceral, cristalizando o choque entre duas visões antagônicas de mundo. Em uma série de postagens inflamadas em sua plataforma Truth Social, o ex-presidente não poupou críticas: chamou o show de “absolutamente terrível” e “um dos piores de todos os tempos”, afirmou que a apresentação “não faz sentido” e a definiu como “uma afronta à grandeza da América”, acusando a performance de não refletir os supostos “padrões de sucesso, criatividade ou excelência” do país. Trump chegou a dizer que “ninguém entende uma palavra” do que Bad Bunny canta e que a dança era “repugnante”, especialmente para crianças, qualificando o conjunto do show como “um tapa na cara” da nação enquanto atacava a mídia e a NFL pelos elogios à performance. Sua crítica incendiária expôs uma resistência feroz a uma celebração artística que, em vez de se curvar a narrativas hegemônicas, colocou a pluralidade cultural — e a língua espanhola — no centro de um dos palcos mais assistidos do planeta.
*Fonte: CNN
Por: Eufrate Almeida