Por Eufrate
Almeida
O futebol, em sua essência, é uma máquina de produzir milagres. Mas o que aconteceu nesse dia 15/06, no gramado da Copa do Mundo não foi só um resultado esportivo; foi o grito de um arquipélago que, embora pequeno em extensão, é gigante em alma. Cabo Verde, a "Morabeza" em forma de nação, estreou no maior palco da Terra e, através das mãos de um homem de 40 anos, lembrou ao mundo que ninguém chega ao próprio milagre sozinho.
Um Arquipélago entre
Mundos
Para entender a resiliência da seleção
cabo-verdiana, é preciso olhar para o mapa. Encravado no Atlântico Central, a
cerca de 500 km da costa do Senegal, Cabo Verde é um conjunto de dez ilhas
vulcânicas que desafiam a imensidão do oceano. Geopoliticamente, o país é um
exemplo raro de estabilidade democrática e paz no continente africano,
funcionando como uma ponte estratégica entre a África, a Europa e as Américas.
Quem teve a oportunidade de caminhar
por suas ruas de Mindelo, da ilha do Sal e da cidade de Praia, sua capital —
como fiz em 1996 — sabe que o maior tesouro das ilhas não é sua posição
geográfica, mas seu povo. Pessoas amáveis, acolhedoras e donas de uma
hospitalidade (a famosa Morabeza) que faz qualquer brasileiro se sentir
em casa.
Cabo Verde e Brasil:
Espelhos no Atlântico
A conexão entre Brasil e Cabo Verde
atravessa séculos. Não é apenas o idioma português que nos une, mas o ritmo que
corre nas veias. Enquanto o Brasil tem o Samba e a Bossa Nova, Cabo Verde nos
presenteia com a Morna, o Funanã e coladeira — ritmos imortalizados pela
voz de Cesária Évora —. Músicas que falam de saudade, de mar e de reencontros,
sentimentos que qualquer brasileiro entende sem tradução.
Na mesa, a proximidade continua. A Cachupa,
prato nacional cabo-verdiano, é uma "prima" próxima da nossa feijoada
e do baião de dois, misturando milho, feijão e carnes em um cozido que alimenta
não só o corpo, mas a identidade de um povo que aprendeu a extrair força da
terra vulcânica.
O Herói de Mindelo: A
História de Vozinha
No centro dessa epopeia está Josimar
José Évora Dias, mas o mundo agora só o chama por um nome: Vozinha.
O apelido, que viralizou após ele parar a poderosa Espanha com sete defesas
monumentais (seis delas dentro da área), nasceu no aconchego de casa. Criado
pelos avós em Mindelo enquanto os pais trabalhavam, Josimar voltava das
brincadeiras de rua para reclamar das provocações dos amigos. "Vai contar
para a vovozinha de novo?", diziam eles. O apelido pegou e, ironicamente,
tornou-se o nome de guerra de um gigante de 1,89m.
Vozinha nunca foi um fenômeno precoce.
Construiu sua carreira longe dos holofotes, rodando por clubes pequenos e ligas
periféricas, mantendo a chama acesa até os 40 anos. Ontem, contra os craques
multimilionários da Espanha, ele provou que o tempo é um aliado dos que têm
propósito. O empate em 0 a 0 não foi apenas um ponto na tabela; foi a maior página
da história do esporte cabo-verdiano.
Defender quem nos criou.
A performance de Vozinha ganhou um
significado ainda mais profundo por coincidir com o Dia Mundial de
Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Enquanto milhões
celebravam suas defesas, a trajetória de Vozinha apontava para os bastidores:
para os avós que acreditaram nele quando ninguém sabia seu nome.
Esta história deixa de ser sobre
futebol para se tornar uma lição de civilidade. Como sociedade, muitas vezes
aplaudimos o vencedor no palco, mas esquecemos de quem segurou a escada. O
abandono é a primeira forma de violência. Vozinha, fã declarado de ídolos
brasileiros como Rogério Ceni e Ivete Sangalo, usou sua luva para defender o
gol e a honra de uma geração que nos ensinou a caminhar.
Cabo Verde e Vozinha nos lembraram que
o sucesso aos 40, 50 ou 60 anos é fruto das sementes plantadas por aqueles que
vieram antes de nós.
Além de empatar com a Espanha Cabo
Verde ensinou ao mundo que nunca é tarde para viver um sonho, e que nunca é
cedo demais para honrar quem cuidou de nós antes do mundo saber o nosso nome.
