PÁGINAS


O CARNAVAL COMO "SALA DE AULA"

A RESISTÊNCIA CONTRA O APAGAMENTO ANCESTRAL


O Carnaval brasileiro, muito além de uma "festa profana", consolidou-se como o maior palco de preservação da memória negra e africana no país. Historicamente, o ensino formal brasileiro ignorou as narrativas afro-brasileiras, um cenário que deveria ter mudado com a promulgação da Lei 10.639/03. Esta legislação tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em toda a rede de ensino de base, reconhecendo que a identidade nacional não pode ser compreendida sem a contribuição fundamental dos povos escravizados.

​No entanto, mesmo após duas décadas de vigência, a aplicação da lei ainda enfrenta barreiras severas na sociedade. O racismo estrutural e o fundamentalismo religioso criam uma resistência silenciosa — e por vezes barulhenta — dentro e fora das escolas, que tenta rotular o estudo das religiões de matriz africana e da filosofia iorubá como "doutrinação" ou "pecado".

​Diante dessa lacuna entre o que diz a lei e o que é efetivamente aceito pela parcela conservadora da população, o Carnaval assume um papel pedagógico vital. As escolas de samba funcionam como "salas de aula a céu aberto", ocupando o vácuo deixado por um sistema educacional que ainda hesita em abraçar sua herança negra. Se não fosse pela batida do tambor na avenida, figuras históricas, rituais e a cosmogonia dos Orixás teriam sido sufocados pelo tempo. Ao cantar o Candomblé e a Umbanda, as agremiações garantem que essa cultura não caia no esquecimento, transformando o desfile em um ato de reexistência contra o apagamento histórico.

A reprovação de setores cristãos ao Carnaval, sob a justificativa de ser uma "festa da carne", revela um forte racismo religioso. Enquanto o Carnaval é alvo de "satanização" por seus temas africanos, festas de origem europeia e cristã que ocupam o espaço público com o mesmo vigor são celebradas como patrimônio e identidade.

 Abaixo, comparamos manifestações que, embora também parem cidades e envolvam grandes aglomerações e consumo, não sofrem o mesmo estigma:

 

Festa

Origem / Contexto Religioso-Cultural

Percepção Social Predominante

Tratamento Midiático

Círio de Nazaré (Belém)

Tradição católica em devoção a Nossa Senhora de Nazaré, realizada anualmente em Belém do Pará, reunindo milhões de fiéis.

Amplamente reconhecida como expressão legítima de fé, considerada patrimônio cultural nacional e símbolo da religiosidade brasileira.

Cobertura majoritariamente positiva, com destaque para a fé, a tradição e o impacto turístico e econômico. A narrativa enfatiza emoção, devoção e grandiosidade.

Festa de San Gennaro e Acheropita (SP)


Festividades de origem católica e italiana, promovidas por comunidades imigrantes em São Paulo, com forte apelo gastronômico e comunitário.


Vista como celebração cultural tradicional, familiar e gastronômica, integrada ao calendário oficial da cidade.

Abordagem leve e celebratória, com foco na gastronomia, na herança italiana e na convivência familiar. Raramente associada a polêmicas religiosas.

Festa do Divino Espírito Santo

Celebração de origem católica portuguesa, difundida em diversas regiões do Brasil, marcada por rituais religiosos e manifestações folclóricas.


Respeitada como tradição popular e religiosa, associada ao folclore e à preservação da memória cultural.

Tratamento respeitoso, com ênfase na tradição histórica, no folclore e na preservação cultural. Geralmente contextualizada como patrimônio imaterial.

Carnaval de Temática Afro

Expressão cultural vinculada às matrizes africanas e afro-brasileiras, com referências simbólicas e religiosas oriundas da diáspora africana.

Frequentemente alvo de críticas e estigmatizações, sendo por vezes associado de forma preconceituosa a práticas “demonizadas” ou “imorais”.

Cobertura muitas vezes marcada por enquadramentos controversos, sensacionalismo ou associação indevida a conflitos e polêmicas religiosas. Em alguns casos, há invisibilização dos fundamentos históricos e culturais afro-brasileiros.

O Círio de Nazaré, em Belém, é uma das maiores manifestações religiosas do mundo. Reúne milhões de pessoas nas ruas em um rito que mistura o sagrado e o profano (com banquetes e celebrações sociais), mas jamais é chamado de "satanismo". O mesmo ocorre nas festas de San Gennaro e Nossa Senhora Acheropita, em São Paulo, onde as ruas são fechadas para a fé e para o lucro das paróquias, sem que o direito de ir e vir dos cidadãos ou a "moralidade" sejam questionados com a agressividade direcionada aos terreiros na avenida.

Racismo Estrutural: Por que incomoda?

A aversão aos temas "África", "Macumba" e "Candomblé" no Carnaval é o sintoma de um Brasil que ainda não aceitou sua própria identidade. O termo "macumba" é usado de forma pejorativa para desqualificar um conjunto complexo de saberes e filosofias.

Dizer que "o Carnaval só fala disso" é ignorar que a cultura negra é o próprio alicerce do Carnaval. O samba nasceu nos quintais das "Tias Baianas", as mães de santo que protegiam os músicos da perseguição policial no início do século XX. Atacar o tema africano no Carnaval é, portanto, atacar a própria existência da festa e da população que a construiu.

A liberdade religiosa, garantida pela Constituição, deve valer para todos. Enquanto festas cristãs são abraçadas como "cultura", os enredos afro-brasileiros são tratados como ameaça. Defender a presença dos Orixás na Sapucaí ou no Anhembi é defender a história do Brasil. O Carnaval não é o lugar do pecado, mas o território da liberdade onde o povo negro, por alguns dias no ano, consegue ser o protagonista da sua própria história, impedindo que sua ancestralidade seja apagada pela intolerância.


Para aprofundar a análise sobre as raízes do preconceito que ainda cercam as manifestações de matriz africana no Carnaval paulistano, conversamos com o Dr. Tadeu Kaçula. Sambista de linhagem tradicional, Kaçula une a vivência prática do terreiro e da avenida ao rigor acadêmico de seu mestrado e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Nesta entrevista exclusiva, doutor Tadeu desbrava as camadas do racismo religioso, explica como o sagrado negro é frequentemente empurrado para a marginalidade e discute o papel das escolas de samba como quilombos de resistência cultural e espiritual diante da intolerância.

Você vê a atual “satanização” do Carnaval, por setores cristãos, como uma continuidade direta de política de repressão do Estado e da Igreja?

Quando analisamos a criminalização do samba e das religiões de matriz africana no início do século XX, especialmente sob o Código Penal Brasileiro de 1890, percebemos que não se tratava apenas de repressão moral, mas de um projeto de engenharia social. O Estado republicano, aliado a setores da Igreja, buscava “higienizar” o espaço público, retirando dele tudo aquilo que remetesse à presença negra recém liberta.

O samba era caso de polícia. O tambor era tratado como ameaça. Os terreiros eram invadidos. Isso não foi episódico — foi estrutural.

Quando hoje observamos setores cristãos demonizando o Carnaval, acusando-o de “festa do demônio”, vejo sim uma linha de continuidade simbólica com aquele passado. A linguagem muda, mas a lógica permanece: controlar o corpo negro, controlar a rua, controlar a manifestação cultural que nasce da diáspora africana.

A “satanização” contemporânea não é apenas moral religiosa; ela é uma disputa pelo espaço público. É a tentativa de reafirmar quem tem legitimidade para ocupar a cidade. Historicamente, quando o negro ocupa a rua com tambor, dança e religiosidade, isso é tratado como desordem. Quando a tradição europeia ocupa o mesmo espaço, isso é chamado de cultura.

Portanto, não é exagero falar em continuidade histórica — ainda que hoje ela se manifeste mais no campo simbólico do que no jurídico explícito.

Por que o sagrado africano nunca recebeu o mesmo salvo-conduto social que têm as festas cristãs?

Tomemos como exemplo a Festa de San Gennaro e o Cirio de Nazare. Ambas ocupam o espaço público, envolvem comércio, comida, música, multidão — elementos que poderiam ser classificados como “profanos”. No entanto, são protegidas pela legitimidade do cristianismo hegemônico.

O que ocorre é que o sagrado europeu foi institucionalizado como o sagrado oficial da nação. Já o sagrado africano foi racializado. Ele não foi visto como religião legítima, mas como feitiçaria, superstição ou ameaça moral.

O problema nunca foi o “profano”. O problema foi a origem racial do sagrado.

O cristianismo europeu foi incorporado ao Estado e transformado em patrimônio. Já as religiões afro-brasileiras foram empurradas para a margem, associadas ao perigo e à criminalidade. Isso revela que o critério não era teológico, mas racial e político.

Quando uma procissão católica fecha ruas, é tradição. Quando um xirê ocupa um espaço, é “perturbação”. Essa diferença não é religiosa; é histórica e racial.

Podemos dizer que os desfiles são dispositivos de memória que impedem o esquecimento de trajetórias que a história tem dificuldade em narrar?"

Durante séculos, a historiografia oficial brasileira construiu uma narrativa centrada na elite branca, apagando revoltas negras, lideranças africanas e experiências de resistência.

Nesse contexto, as escolas de samba assumem um papel extraordinário. Elas funcionam como um contra-arquivo. Um arquivo insurgente.

Quando uma escola coloca na avenida figuras como Zumbi dos Palmares, Dandara dos Palmares ou questiona versões oficiais da história, ela está fazendo disputa de memória.

O desfile não é apenas espetáculo. É pedagogia pública.

Mesmo após a Lei 10.639/03, a história africana e afro-brasileira ainda enfrenta resistência nas salas de aula. O Carnaval, nesse sentido, antecipa debates que a academia e o currículo formal demoram a assumir.

A avenida transforma alegoria em documento, samba-enredo em tese, bateria em manifesto. É memória cantada para impedir o esquecimento.

Na tua visão, por que parte da sociedade brasileira tem dificuldade em reconhecer a base civilizatória africana, como algo tão “clássico” e “nacional” quanto a herança europeia?

A resistência aos enredos que abordam Orixás e África revela algo profundo: o Brasil ainda tem dificuldade de reconhecer a África como matriz civilizatória e não apenas como origem da escravidão.

A herança portuguesa é vista como clássica, fundadora, civilizada. A herança africana é frequentemente tratada como folclórica ou exótica. Isso revela o quanto o imaginário colonial permanece ativo.

A Lei 10.639/03 propõe uma reparação simbólica e epistemológica: ensinar que África é filosofia, ciência, política, estética, cosmologia.

Quando uma escola de samba exalta os Orixás, ela está afirmando que essa espiritualidade é tão estruturante da identidade nacional quanto o catolicismo ibérico. A reação contrária revela o incômodo de reconhecer que o Brasil não é apenas herdeiro de Lisboa — é também herdeiro de Luanda, do Benim, de Oyó.

A dificuldade não é religiosa. É civilizatória.

Reconhecer a base africana como “clássica” é admitir que a nação foi construída também a partir da inteligência, da arte e da espiritualidade negra. E isso ainda desafia as hierarquias simbólicas herdadas da colônia.

Como sambista e sociólogo, afirmo: o Carnaval não é desvio moral. É campo de disputa histórica. E o tambor, que um dia foi criminalizado, hoje é arquivo vivo da memória brasileira. Concluiu o sociólogo.

Esta reportagem foi inspirada no vídeo de desabafo publicado nas redes sociais pela professora Lilian Atanazio Silvestre, estudiosa e pesquisadora das questões étnico-raciais. Em sua fala, a professora manifesta indignação diante das reações negativas de setores da sociedade em relação ao Carnaval, provocando uma reflexão necessária sobre os significados culturais e sociais do Carnaval, em contraponto às festas cristãs.


Tadeu Augusto Matheus (conhecido por Tadeu Kaçula) é sambista, sociólogo e pesquisador com Mestrado e Doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutorando na Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP), pesquisador visitante do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL). Pesquisador visitante na Universidade de Edimburgo - Reino Unido.

Membro do grupo de Estudos Latino Americano sobre Cultura e Comunicação (CELACC - USP), membro do grupo de estudos Griô da Universidade Federal da Bahia - (UFBA).

Autor dos livros Casa Verde: uma pequena África paulistana (LiberArs Editora), Samba e Pandemia: 2021, o ano que o samba parou (Proac), A Imprensa Negra na Década de 1930: Frente Negra Brasileira e o Jornal A Voz da Raça (LiberArs Editora). Autor convidado no livro Cultura Política nas Periferias – estratégias de reexistência (Fundação Perseu Abramo).

Por Eufrate Almeida