POÇOS DE CALDAS
DESPERTA SOB A LUZ DA ÉTICA ANIMAL
Neste 13 de março de 2026, Poços de Caldas acordou diferente. O som metálico das ferraduras contra o asfalto, que por décadas ecoou como um lamento de resistência animal, foi finalmente substituído pelo silêncio tecnológico da modernidade. A data marca o primeiro dia oficial da cidade sem as famigeradas charretes de passeio turístico, encerrando um ciclo histórico de exploração animal que já não encontrava lugar na consciência do século XXI. Com a entrada em vigor da Lei nº 10.053, de 12 de dezembro de 2025, o município instituiu o serviço de "Carruagem Elétrica", seguindo os passos éticos de outras cidades mineiras como Tiradentes e São Gonçalo, que já extinguiram essa modalidade forçada de trabalho.
Sob uma chuva que parecia lavar o
passado de negligência, o Instituto Pégasus organizou uma manifestação pacífica
no exato local onde as charretes costumavam estacionar. O evento, carregado de
simbolismo, contou com a presença de autoridades que viabilizaram a transição.
O prefeito Paulo Ney não escondeu o orgulho ao sancionar a medida: "É uma
satisfação imensa para esta gestão ser o instrumento legal que dá fim ao
trabalho imposto aos cavalos. Poços de Caldas prova que o progresso turístico
deve caminhar de mãos dadas com a compaixão e o respeito à vida", declarou.
O secretário de Turismo, Franco
Martins, também celebrou o novo momento, enfatizando o esforço institucional.
"Estou profundamente feliz pelo trabalho conjunto entre os poderes
Executivo e Legislativo. Alcançar este resultado exigiu diálogo e coragem para
entender que o futuro do nosso turismo é sustentável e livre de
crueldade", afirmou o secretário. Ao lado dele, Paulinho Courominas,
diretor do DMAE, acompanhou o ato que selou o compromisso da cidade com uma
nova identidade urbana.
Para o grupo de protetores presentes,
a emoção transbordava em lágrimas que se misturavam à chuva. Foram mais de
trinta anos de uma luta árdua, marcada por embates acalorados na Câmara
Municipal, xingamentos e até ameaças de morte proferidas por aqueles que
lucravam com a tração animal. O sentimento de alívio, porém, veio acompanhado
de uma vigilância constante.
Cristiane Caputo, presidente do
Instituto Pégasus, expressou a ambivalência deste momento histórico:
"Vencemos uma guerra de décadas, mas nosso coração ainda pulsa forte pelos
animais que hoje deixam as ruas. Nossa maior preocupação agora é garantir que
cada um desses cavalos, que ainda estão sob o poder dos charreteiros, tenha um
destino digno e seguro. Não descansaremos até que o último deles esteja em um
santuário", desabafou emocionada. A vice-presidente, Fabiana Anjos,
reforçou o apelo: "A libertação das ruas é o primeiro passo. Agora,
lutamos pela vida e pela integridade física desses seres que tanto nos deram em
troca de nada. Acompanharemos cada transferência de posse para que a exploração
não mude apenas de endereço".
Os presentes
foram encorajados a participar do desmonte daquela estrutura e da materialização
de que o ciclo de sofrimento realmente chegou ao fim. "Não estamos apenas
removendo pedras e ferros, estamos removendo uma cultura de servidão que não
cabe mais em uma Poços de Caldas moderna e humana", pontuou o prefeito
durante a ação.
A vitória em Poços de Caldas é a prova de que a empatia e a modernização dos modais turísticos são forças imparáveis. A substituição da tração animal por propulsão elétrica é uma mudança de paradigma: a celebração da vida sobre a servidão. A luta pelo bem-estar animal suplantou, enfim, uma vida de escravidão e maus-tratos, devolvendo a dignidade aos cavalos e a honra ao turismo poços-caldense.
Por Eufrate Almeida


