HISTÓRIA DA CAPOEIRA
ORIGEM DA CAPOEIRA
O surgimento da capoeira
A capoeira surgiu entre pessoas africanas
escravizadas no Brasil como um grito de liberdade e resistência. Muito mais do
que uma luta, ela foi uma estratégia de sobrevivência física, cultural e
espiritual diante da violência do sistema escravocrata.
Os africanos, em sua maioria provenientes da região
de Angola, foram trazidos à força para o Brasil para trabalhar nas lavouras de
cana-de-açúcar como mão de obra escravizada. Segundo Menezes (1976), a vida
dessas pessoas sequestradas de seu continente era marcada por trabalho
exaustivo, de sol a sol, sob o domínio dos senhores portugueses que exploravam
as riquezas brasileiras desde o período colonial.
Ao chegarem à nova terra, os africanos escravizados
eram distribuídos entre os senhores, marcados a ferro em brasa como mercadoria
e amontoados nas senzalas — espaços insalubres e desumanos. Os colonizadores
propositadamente misturavam africanos de diferentes regiões, com línguas,
hábitos e tradições distintas, numa tentativa de dificultar a organização
coletiva e evitar rebeliões.
Após atravessarem o Atlântico em condições brutais
nos navios negreiros, essas pessoas trouxeram como única bagagem suas tradições
culturais, religiosas e corporais. Entre elas estavam danças, rituais e formas
de luta que mais tarde se transformariam em ferramentas de resistência.
Na África, especialmente na região de Angola, havia
práticas corporais conhecidas como “luta das zebras”, que envolviam cabeçadas e
chutes e tinham caráter ritual e social. Já no Brasil, privados de armas e
submetidos à violência colonial, os africanos transformaram suas danças
guerreiras em uma forma de autodefesa disfarçada de expressão cultural.
Observando a natureza — os movimentos dos animais,
como marradas, coices, saltos e ataques — e inspirando-se em manifestações
culturais africanas, os escravizados passaram a desenvolver uma prática
corporal que misturava luta, dança, música e jogo: assim nasceu a capoeira. Ela
era praticada nos espaços livres das matas e capoeiras (vegetação rasteira), o
que também influenciou seu nome.
Com o tempo, as autoridades coloniais perceberam o
potencial de resistência da capoeira e passaram a reprimi-la duramente,
rotulando-a como “arte negra” e associando-a à desordem (Santos, 1998).
Em 1888, com a abolição formal da escravidão,
milhares de pessoas libertas foram lançadas à própria sorte, sem-terra, emprego
ou direitos. Nesse contexto de exclusão social, a capoeira tornou-se um meio de
sobrevivência. Alguns ex-escravizados passaram a fazer apresentações em praças
públicas para ganhar dinheiro, enquanto outros, marginalizados pelo sistema, a
utilizaram em conflitos e atividades ilícitas.
Grupos de marginais brancos também passaram a
praticar capoeira, incorporando armas brancas à sua dinâmica, o que contribuiu
para reforçar o estigma negativo sobre a prática. Como resultado, formaram-se
bandos que assustavam a população urbana.
Em 1890, a capoeira foi oficialmente criminalizada
pelo Código Penal da República. O artigo 402 previa prisão para quem praticasse
capoeiragem em ruas e praças públicas ou portasse instrumentos capazes de
ferir. Segundo Sodré (1983), as punições incluíam prisão na Ilha de Fernando de
Noronha e castigos corporais, como chibatadas. Apesar da repressão e do
encarceramento de muitos líderes (Areias, 1983), a capoeira sobreviveu e
continuou sendo transmitida de geração em geração.
Ela se consolidou principalmente na Bahia, no Rio
de Janeiro e em Pernambuco, onde ganhou visibilidade popular e midiática, ainda
que sob forte perseguição policial.
Em 1929, com a crise econômica mundial e a chegada
de Getúlio Vargas ao poder, o Brasil viveu intensas transformações sociais.
Buscando aproximação com o povo, Vargas passou a valorizar certas manifestações
culturais populares. Nesse contexto, convidou Manoel dos Reis Machado, o Mestre
Bimba, para uma apresentação no Palácio do Governo.
A partir daí, Vargas autorizou a abertura da
primeira academia formal de capoeira, ainda sob um viés folclórico e
disciplinador. Para treinar com Mestre Bimba, os alunos precisavam ter carteira
de trabalho assinada, numa tentativa de afastar a imagem da capoeira como
prática marginal.
Grande parte do conhecimento sobre a capoeira
praticada no período escravocrata foi transmitido oralmente, já que, como
aponta Sete (1997), documentos oficiais sobre a escravidão foram destruídos por
ordem de Rui Barbosa, então Ministro da Fazenda.
Hoje, a capoeira é reconhecida como patrimônio
cultural brasileiro e expressão afro-diaspórica de resistência, identidade e
criatividade. O que nasceu como instrumento de luta contra a opressão tornou-se
uma prática presente no Brasil e no mundo, reunindo milhares de praticantes e
admiradores até os dias atuais.
O significado de capoeira
Capoeiras
eram áreas de vegetação baixa e parcialmente desmatadas onde os africanos escravizados
treinavam seus movimentos e golpes. Muito provavelmente, foi desses espaços que
surgiu o nome da luta.
Os
movimentos da capoeira, marcados por golpes acrobáticos e elementos de dança,
foram fundamentais para disfarçar seu caráter de luta. Muitos senhores de
engenho acreditavam que se tratava apenas de uma brincadeira ou entretenimento
dos escravizados, permitindo sua prática sem perceber seu real propósito de
resistência e autodefesa.
Segundo
Areias (1983), a ginga — movimento base da capoeira — cumpria papel central
nesse disfarce, pois dava à luta um aspecto lúdico, rítmico e aparentemente
inofensivo. Assim, por muitos anos, a capoeira funcionou como um instrumento
estratégico de proteção e organização dos africanos escravizados.
Instrumentos
As
rodas de capoeira são conduzidas pelo som dos instrumentos musicais e pelas
palmas dos capoeiristas, criando uma atmosfera de ritmo, diálogo corporal e
ancestralidade.
O
berimbau, principal instrumento da capoeira, não servia apenas para marcar o
ritmo do jogo. Ele também tinha função prática e de vigilância: por meio de
seus diferentes toques, podia alertar os capoeiristas sobre a aproximação de um
feitor ou autoridade, sinalizando o momento de interromper a luta e
transformá-la em dança.
Dessa
forma, a musicalidade sempre esteve intrinsecamente ligada à sobrevivência, à
estratégia e à cultura da capoeira, reforçando seu caráter simbólico como
expressão de resistência afro-brasileira.
Formação da capoeira no Brasil
As primeiras pessoas africanas escravizadas
começaram a desembarcar no Brasil por volta de 1548. Ao longo dos três séculos
seguintes, a maioria delas pertencia ao tronco linguístico banto, do qual faz
parte a língua Kimbundo.
Esse conjunto englobava povos de regiões como
Angola, Benguela, Moçambique, Cabinda e Congo. Segundo o antropólogo Oderp
Serra, “eram povos organizados em pequenos reinos, com domínio de técnicas
agrícolas e uma visão muito plástica e imaginativa da vida, além de grande
capacidade de adaptação cultural”.
No Brasil, grupos étnicos que antes eram rivais
foram forçados a conviver sob o mesmo regime de escravização. Dessa convivência
compulsória nasceu uma cultura afro-brasileira diversa e potente, que deixou
marcas profundas na formação cultural do país — especialmente na música, na
dança, na religiosidade e nas expressões corporais.
Não há consenso na historiografia recente que
comprove que a capoeira tenha origem direta em alguma prática africana
específica. O que se pode afirmar com segurança é que ela foi desenvolvida por
pessoas africanas escravizadas no Brasil. Portanto, a capoeira é uma criação
afro-brasileira legítima e original.
Não é possível determinar com precisão em qual
cidade ela surgiu primeiro. Provavelmente, seu desenvolvimento ocorreu de forma
simultânea em centros urbanos como Salvador, Recife e Rio de Janeiro. O certo é
que a capoeira nasceu como um instrumento de libertação e resistência contra um
sistema colonial violento e opressor.
Dentro desse sistema, o homem negro escravizado era
tratado como propriedade; os meninos eram chamados de “moleques” e as mulheres
escravizadas com filhos eram desumanizadas e comparadas a animais reprodutores.
Os registros históricos sugerem que as primeiras manifestações semelhantes à
capoeira datam entre 1578 e 1632.
Por isso, o surgimento da capoeira se confunde com
a própria história da resistência negra no Brasil. Muitos autores associam seu
aparecimento ao surgimento dos primeiros quilombos, especialmente ao Quilombo
de Palmares — que chegou a reunir cerca de 50 mil pessoas e foi destruído em
1694 — sendo frequentemente apontado como um dos grandes centros de preservação
cultural e resistência negra.
No século XIX, as principais cidades portuárias
brasileiras — como Salvador, Recife e Rio de Janeiro — eram grandes
aglomerações urbanas marcadas por desigualdade e exploração.
Era comum a presença da figura da pessoa
escravizada de ganho: indivíduos autorizados a trabalhar nas ruas vendendo
produtos ou prestando serviços, entregando uma parte do que arrecadavam ao seu
senhor. Muitos atuavam carregando móveis, mercadorias ou realizando serviços
pesados próximos ao porto.
Com o tempo, esses trabalhadores passaram a se
organizar em grupos liderados por um “capitão” — geralmente um homem
reconhecido por sua habilidade na capoeira e por sua coragem — criando redes de
proteção, solidariedade e também de confronto quando necessário.
O Reconhecimento da capoeira
O processo de reconhecimento da capoeira como
prática cultural, luta e posteriormente esporte nacional brasileiro foi
construído ao longo de décadas e pode ser acompanhado por meio de um verdadeiro
calendário histórico.
Em 1907, surgiu um trabalho de autor anônimo, que
se identificou apenas pelas iniciais O.D.C. (Ofereço, Dedico e Consagro),
intitulado O Guia da Capoeira ou Ginástica Brasileira. Essa obra foi uma
das primeiras tentativas de sistematizar e legitimar a capoeira como prática
corporal organizada.
Em 1928, Annibal Burlamaqui publicou Ginástica
Nacional (Capoeiragem) Metodizada e Regrada, reforçando o esforço de
estruturar a capoeira como disciplina física e cultural.
Em 1932, Mestre Bimba fundou, em Salvador, o Centro
de Cultura Física e Capoeira Regional, marco fundamental para a institucionalização
da capoeira.
Em 1937, esse centro obteve registro oficial,
consolidando a capoeira dentro de um espaço formal de ensino.
Em 1942, a Divisão de Educação Física do Ministério
da Marinha realizou um inquérito para identificar os melhores elementos para a
criação de um método oficial de ensino da capoeira.
Em 1945, Inezil Penna Marinho lançou o livro Subsídios
para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem, contribuindo
para a discussão acadêmica e pedagógica da prática.
Em 1960, Lamartine Pereira da Costa — então oficial
da Marinha, formado em Educação Física e instrutor-chefe da Escola de Educação
Física da Marinha (CEM-RJ) — publicou a obra clássica Capoeiragem: A Arte da
Defesa Pessoal Brasileira.
Em 1968, Waldeloir Rego lançou Capoeira Angola:
Ensaio Socioetnográfico, considerado um dos estudos mais completos sobre a
tradição da capoeira angola.
Em 1º de janeiro de 1973, entrou em vigor o
Regulamento Técnico da Capoeira, que oficializou a prática como Esporte
Nacional Brasileiro — um passo decisivo para seu reconhecimento
institucional.
Ainda em 1973, em 27 de outubro, foram
registradas diversas associações de capoeira no estado do Rio de Janeiro,
fortalecendo sua organização coletiva.
Em 14 de julho de 1974, foi fundada a Federação
Paulista de Capoeira (FPC).
Em 17 de maio de 1984, foi criada a Liga
de Capoeira Cordel Vermelho, em Minas Gerais.
Em 20 de julho de 1984, surgiu a Federação
de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro (FCERJ).
Em 21 de abril de 1989, foi fundada a Liga
Niteroiense de Capoeira (LINC).
Em 23 de outubro de 1992, nasceu a Confederação
Brasileira de Capoeira (CBC), organização nacional de grande relevância
para a articulação política e esportiva da capoeira.
Em 13 de maio de 1995, foi criada a Federação
de Capoeira Desportiva do Estado do Rio de Janeiro (FCDRJ).
Por fim, em 3 de junho de 1995, foi fundada
a Liga Carioca de Capoeira, ampliando ainda mais a organização da
prática no estado do Rio de Janeiro.
Capoeira nos dias atuais
A
capoeira, antes era praticada livremente em
espaços abertos, passou a ser treinada formalmente dentro de academias.
Essa
transição dos campos, matas e ruas para espaços fechados de ensino não foi a
única transformação pela qual a capoeira passou ao longo do tempo. Com sua
institucionalização nas academias, algumas características da capoeira
praticada nos engenhos e nos quilombos foram adaptadas à nova realidade urbana
e pedagógica.
Além
de um local fixo para treinamento, foram estabelecidos horários regulares para
as aulas. Também foi padronizado um uniforme: calça branca — que simboliza as
calças de saco usadas pelos africanos escravizados no trabalho — e um cordel
amarrado no lado direito da cintura. Alguns grupos de capoeira Angola, por sua
vez, utilizam calça preta como forma de afirmação identitária e tradição.
Atualmente,
os capoeiristas se organizam em grupos ou associações, que geralmente carregam
nomes ligados à história da resistência negra e à memória da escravidão. Muitos
desses grupos utilizam símbolos bordados ou estampados na calça para
representar sua identidade coletiva.
Essas
associações têm como objetivo principal difundir a capoeira pelo Brasil e pelo
mundo. Vários grupos já levaram a capoeira para outros países, contribuindo
para sua internacionalização e reconhecimento global como patrimônio cultural
afro-brasileiro.
Apesar
das diferentes interpretações da capoeira — alguns a abordam de forma mais
folclórica, outros enfatizam seu aspecto de luta, há quem priorize o caráter
esportivo e quem destaque seu potencial educativo — a maioria dos grupos
convive de maneira respeitosa e pacífica.
Como
demonstração desse espírito de diálogo e troca, encontros e eventos de capoeira
são realizados periodicamente, reunindo mestres, professores e praticantes para
compartilhar conhecimentos, experiências e tradições.
Concepções da capoeira
A
capoeira pode e deve ser ensinada de forma ampla e integrada, permitindo que
cada praticante descubra e construa sua própria identificação com uma ou mais
de suas dimensões.
Cabe
ao professor um papel fundamental nesse processo: orientar, estimular e mediar
a aprendizagem para que o aluno desenvolva plenamente suas potencialidades
físicas, culturais, emocionais e sociais.
A
capoeira pode ser compreendida e praticada a partir das seguintes perspectivas:
Capoeira-Luta
Representa
sua origem histórica e sua sobrevivência ao longo do tempo em sua forma mais
essencial: como instrumento de defesa pessoal e resistência cultural
afro-brasileira. Nessa abordagem, a capoeira deve ser ensinada com foco no
combate, na estratégia corporal e na autodefesa.
Capoeira-Dança e Arte
A
dimensão artística da capoeira manifesta-se na música, no ritmo, no canto, nos
instrumentos e na expressividade corporal dos movimentos.
Além
disso, a capoeira é uma rica fonte de inspiração para as artes plásticas, a
literatura, o teatro e a dança contemporânea.
Como
dança, seu ensino deve explorar a estética do movimento, desenvolvendo
flexibilidade, agilidade, destreza, equilíbrio e coordenação motora, além de
incentivar a criatividade coreográfica e a satisfação pessoal do praticante.
Capoeira-Folclore
A
capoeira é uma expressão legítima da cultura popular brasileira e, como tal,
deve ser preservada e valorizada.
Seu
ensino precisa envolver tanto a prática corporal quanto o estudo teórico de sua
história, símbolos, tradições e ancestralidade africana.
Capoeira-Esporte
Institucionalizada
como modalidade esportiva em 1972 pelo Conselho Nacional de Desportos, a
capoeira-esporte possui caráter competitivo e exige treinamento sistemático nas
dimensões física, técnica e tática.
Nessa
perspectiva, o praticante é preparado para desempenho, disciplina e rendimento
dentro de regras estabelecidas.
Capoeira-Educação
A
capoeira é um poderoso instrumento pedagógico para a formação integral do
indivíduo.
Ela
contribui para o desenvolvimento físico, emocional e social, fortalece o
caráter, estimula a autoestima e favorece mudanças positivas de comportamento.
Além
disso, promove o autoconhecimento, a consciência corporal e a reflexão crítica
sobre limites e potencialidades pessoais.
Capoeira-Lazer
Manifesta-se
nas rodas espontâneas realizadas em praças, escolas, universidades, festas
populares e eventos culturais.
Nesses
espaços informais, a capoeira funciona como meio de convivência, troca
cultural, socialização e celebração coletiva.
Capoeira-Filosofia
Para
muitos praticantes, a capoeira vai além do corpo e do movimento: ela se torna
uma filosofia de vida.
Seus
fundamentos valorizam o respeito ao próximo, a humildade, a ancestralidade e a
sabedoria dos mais velhos.
Há
capoeiristas que incorporam esses princípios em sua vida cotidiana, adotando a
capoeira como referência ética, espiritual e até profissional.
Capoeira-Terapia
O
esporte, de modo geral, desempenha papel essencial no desenvolvimento físico e
funcional do ser humano. Para pessoas com deficiência, quando praticado com
respeito às suas limitações e potencialidades, esse papel torna-se ainda mais
significativo.
Nesse
contexto, a capoeira vem se destacando não apenas como esporte, mas como
prática terapêutica.
Quando
aplicada de forma adequada às etapas mentais, cronológicas e motoras de cada
indivíduo, a capoeira contribui para:
·
melhora
do tônus muscular;
·
aumento
da flexibilidade e da amplitude de movimento;
·
aprimoramento
da coordenação motora e do equilíbrio;
·
ajuste
postural e percepção corporal;
·
desenvolvimento
de força e agilidade;
·
redução
de tensões emocionais, como medo e agressividade;
·
fortalecimento
da socialização e da autoestima.
Assim,
a capoeira favorece tanto a saúde física quanto o bem-estar psicológico e
social, tornando-se uma ferramenta inclusiva e transformadora.