A Poética Afrocentrada de Agostinho Moura
Por Eufrate Almeida
Atualmente ocupando as salas do Centro Cultural Correios, no coração do Rio, a mostra — com
curadoria de Paula Borghi — consolida Agostinho como um dos nomes mais
promissores da nova geração. Sua obra além de retratar o imaginário afrocentrado,
ela o protege, oferecendo um refúgio visual contra a hipervigilância e o
desgaste histórico impostos pela colonialidade.
O que torna o trabalho de Agostinho Moura peculiar é a
sua capacidade de transformar o "velho" em ancestralidade viva. Sua
técnica é um exercício de contracolonização material. O artista utiliza
suportes que carregam o peso do tempo, como livros antigos, tecidos desgastados
e vestimentas, para neles inscrever novas narrativas.
Ao pintar sobre as páginas de obras que, muitas vezes,
ignoraram ou silenciaram a presença negra, Agostinho realiza uma reapropriação
simbólica. Ele desloca o eixo do olhar: o negro não é mais o objeto de estudo
ou a mão de obra, mas o protagonista de momentos de introspecção e cuidado. Há
uma riqueza tátil em suas telas; as camadas de tinta e as texturas dos
materiais reaproveitados criam uma profundidade que convida o espectador a uma
observação demorada, quase meditativa.
A tese central de Agostinho, explorada com maestria em seu vídeo exibido na Cultne.TV, é a de que a resistência também se faz no repouso. Em um mundo que exige produtividade constante e luta ininterrupta, retratar um corpo negro em estado de contemplação, autocuidado ou lazer é um ato profundamente político.
"Agostinho nos lembra que o amanhã já está sendo
gestado no ontem, e que para construir esse futuro, precisamos estar
inteiros".
Suas figuras não estão em fuga; elas estão em casa. Estão
em jardins, em quartos, em espaços de dignidade cotidiana. Essa escolha
estética rompe com a iconografia da dor, tão comum nas representações
históricas, e substitui o estigma pela celebração da beleza e da humanidade.
Agostinho Moura não é um "artista novo"; ele
é um novo artista, um cronista visual de um tempo que exige cura. Sua exposição
no Rio de Janeiro é um convite para que o público negro se veja como força de resistência
e detentor do sagrado direito de simplesmente ser.
Embora seu trabalho dialogue com as ruas de São Paulo
e a luz do Rio, há nele uma universalidade que toca qualquer um que compreenda
a arte como ferramenta de emancipação.
EXPOSIÇÃO:
"O
TEMPO DE ONTEM JÁ É AMANHÃ"
Artista:
Agostinho Moura
Curadoria:
Paula Borghi.
Onde:
Centro Cultural Correios Rio de Janeiro.
Endereço:
Rua Visconde de Itaboraí, 20 - Centro, Rio de Janeiro - RJ.
Período:
De 11 de março a 02 de maio de 2026.
Horário:
Terça a sábado, das 12h às 19h.
Entrada:
Gratuita.



